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24 agosto 2020

Secção Alameda/Areeiro - Semana #23

 

Preparando uma maratona de trabalho
Esta semana tem sido dedicada quase inteiramente a trabalho, em casa, e a tratar de coisas para o início do ano lectivo. Fiz um reajuste da metodologia de trabalho caseiro, que tinha mudado e dispersado um bocado quando o portátil estava vivo.
Resumindo, como já não faço tudo numa única divisão, voltei a ter turnos um pouco mais disciplinados de trabalho, com a ocasional curta interrupção nas redes sociais, através do telesperto. Acompanhada pela minha garrafinha de água do Diabolik, a mini ventoinha e mp3 a gosto, quando não preciso do áudio para trabalhar, faz-se bem. Normalmente oiço a Rádio Oxigénio, mas como este PC é velho, não quero abusar da memória e largura de banda, ao por a rádio a tocar. O link que tinha no Media Player já não deve existir, não funciona. Já não estou é habituada a estar muitas horas sentada na cadeira de escritório. A cadeira é confortável, mas as minhas costas habituaram-se a estar refasteladas no sofá :'D

Nos intervalos, tenho andado a preparar-me para a maratona de mais de 2 semanas de festivais de cinema: lavar a roupa, organizá-la, remendar alguma coisa que esteja a precisar de manutenção. Comprar fruta no supermercado para levar e ter o arsenal de máscaras a postos. Reorganizar a mala.
Estou ligeiramente ansiosa por enfrentar o mundo lá fora, mas as medidas de segurança parecem-me razoáveis e a carga de trabalho vai ser muito menor que o costume, portanto não corro o risco de ficar com o sistema imunológico em baixo ou estoirada. E vai ser bom ver mais caras que a família ou as senhoras do supermercado.

Já terminei de ler o Heart of Darkness e comecei a ler Something Wicked This Way Comes, de Ray Bradbury, mesmo a tempo de celebrar o seu 100º aniversário, dia 22! E ontem, 23 de Agosto, teria feito 50 o River Phoenix :'(
Na TV só tenho acompanhado as séries de antes, estou quase a terminar o MacGyver, comecei a ver a nova edição do Masterchef Australia (foram espertos, fizeram uma temporada de transição, para as saudades dos 3 apresentadores originais não serem tão grandes) e para a semana começa a reposição de Battlestar Galactica. Já não revejo a série desde os anos 90, vai saber bem!

28 maio 2020

Secção Alameda/Areeiro - Semana #11


O Sol dá Cabo de Mim!

Esta semana foi um pouco diferente, a mãezinha fez anos e, pela primeira vez em mais de 2 meses, entrei na casa dela, só na entrada, e fomos juntas passear. Sem abraços nem beijinhos, de carro e de máscara. Também foi a primeira vez que uma Blythe saiu à rua no Pó Calypso. Não tínhamos um plano, mas já que íamos de carro, pensámos em ver o rio. Ao entrar por Monsanto, lembrei-me que ainda não tínhamos ido ao Panorâmico, mas estava fechado, não por causa do bixo, mas para obras. Acabámos por fazer um passeio de carro algo nostálgico por Monsanto, que era um passeio frequente quando eu era miúda.
Belém é nossa! Gritei eu no largo em frente aos Jerónimos, sem ninguém por perto para olhar-me de soslaio. Já não via Belém tão vazia desde que lá morei em 1983 (passámos em frente ao nosso prédio, as janelas foram substituídas por janelas de uma só folha, ficam sempre estranhas num prédio do inicio do séc.XX), e mesmo assim nunca num dia de Sol! Estivémos um pouco à sombra das oliveiras do CCB, comemos um geladinho, a nova parede de plantas trouxe passarinhos e tornou o CCB menos inóspito, os Pastéis de Belém estavam vazios, mas já só vendem Pastéis. Nos anos 80, até ao fim do século, tinham outros bolos e eram deliciosos. Passava por lá para ir à escola, a semanada permitindo, costumava comprar um para o lanche quase todas as manhãs. Por fim, como não estava mais ninguém à porta senão os seguranças, entrámos na igreja dos Jerónimos! Deviam estar mais umas 3 ou 4 pessoas lá dentro! Mesmo assim, tinham os bancos barrados e não pude avançar muito para tirar a foto à sua magnífica abóbada.

Tenho andado ocupada com o meu plano de mudança de carris, a acabar a cama das moças e entrei num passatempo no feicebuque, o Blythe Runway Challenge, segunda edição. Não pude participar na primeira edição, ainda no Flickr, pois as participações eram limitadas e cheguei demasiado tarde para me inscrever. Foi com o BRC que fiquei a conhecer algumas pessoas de quem acabei por ficar amiga, como a Jaszmade* ou a Woollyrockers. O primeiro desafio é o BlytheAir Challenge e, como já queria fazer uma hospedeira há anos, não páro de fazer coisas. Já fiz o vestido, o chapéu, estou a fazer uma capa, uma mala, um saco e ainda vou fazer umas luvas.
Cá em casa, consegui a proeza de partir 2 tigelas numa semana, a da Wonder Woman (T_T), que vou colar, pois só se partiu em 3, e uma do par de malgas amarelas que comprei por €1 na Almirante Reis.

Com o calor que apareceu é que não dá mesmo vontade nenhuma de sair à rua. Mesmo assim, há que comer e fazer o supermercado, desta vez fui pelo Bairro dos Actores e um bocadinho mais tarde, para fugir à torreira que faz deste lado da Alameda à tarde. As lojas da Guerra Junqueiro, Praça de Londres e Avenida de Roma já estão quase todas abertas se não visse pessoas de máscara na rua, nem perceberia que ainda estamos no Pó Calypso. Por mais que goste do ambiente distópico, ver as coisas como de costume dá uma boa sensação que a vida continua!
Falando em máscaras, decidi criar o:
TOP MÁSCARA DA SEMANA
~ máscara a tapar a nuca ~
Entrei no chinês à procura de uma coisa para a minha hospedeira (que não havia), o alcoól gel do chinês cheira a BA-GA-ÇO! xD O Continente, que continua a ser o supermercado onde vou com maior indisciplina, colocou um dispensador de gel novo, de pé. Engraçado. Lá dentro, os sacripantas levaram os iogurtes naturais todos! snif...
O dia não terminou da melhor forma, com uma altercação com a pita, filha da vizinha do lado, que insiste em fazer sala na entrada do prédio, ficam lá ho-ras! Ficou ofendida quando perguntei se não têm quintal para fazer sala. Enfim, gente bronca e mal educada, que teve um rebento ainda mais bronco e mal educado. Que apanhem o cóvido, já que desconhecem o significado do conceito de distanciamento social.

Acabei de ver a série War of the Worlds, gostei de algumas coisas, mas no geral achei aborrecida. Agora estrearam umas quantas, a ver se quando terminar a cama, volto a ligar o PC à TV, retomo Years and Years e começo a ver The Great, com a brilhante Elle Fanning.

22 abril 2020

Secção Alameda/Areeiro - Semana #6


Aqui em casa é tudo ao ralenti

Após estas 5 semanas, tratei de mais um pendente não urgente: Há cerca de um ano ofereceram-me uma impressora/scanner praticamente nova, da EPSON. A antiga dona não percebe nada do assunto e nem me sabia dizer em que condições estava a bicha, sóque não a usava. Como não tenho grande necessidade de imprimir coisas no dia-a-dia, e sabia que ia perder umas horas a instalá-la no PC antigo (e perdi), que é onde tenho os programas gráficos que lhe poderão dar mais uso, não me meti a instalá-la. Foi desta! Tive de ir buscar as drivers, etc., o plug & play do Vista desactualizado ainda funciona pior agora, mas depois de algumas voltas lá a instalei e está a funcionar! É daquelas EPSON Stylus com as cores em tinteiros individuais, I'm not worthy! Acho que aquela placa de contraplacado a pedir-me para fazer um beliche (da IKEA) para as moças, vai finalmente ser usada! (...) Já está quase toda cortada, parcialmente construída, hoje comprei mini dobradiças e lixa e para a semana vou buscar tinta acrílica branca (não, não tinha) à Varela, que reabriu esta semana. E também acho que a Arashi vai finalmente ter a sua Strato (vermelha, claro!), a Oriana mais livros, embalagens de comida, revistas, enfim, miniaturas para as moças.

Eu bem que estava a estranhar a falta de manifestações do vizinho das obras! Enquanto estava às voltas com a instalação da impressora, lá tive uma sessão de porta aberta (o meu quarto, onde está o escritório, é mais perto da porta da rua), com direito a música, que felizmente eram êxitos dos anos 80, e a rebarbadora! Vá lá que não foi muito tempo e não foi às 8h da manhã, mas tinha de ser...

The Mod Child
Falando em moças, acrescentei mais uma personagem à família Mod Star Wars, o/a The Mod Child. Tinha cá os materiais todos (veludo verde seco, camurça falsa cor de camelo, pêlo de carneiro falso) e nenhuma peça é muito complexa. Adoro o resultado! Tenho andado cá a magicar como poderei juntar todos numa espécie de galeria. Para já só na página do feicebuque, que ainda não actualizei.

Foi também precisa uma quarentena para finalmente cozinhar favas! Favas e morangos são uma espécie de tradição nos meus anos, que nem sempre cumpro. Aliás, as melhores favas são as da mãezinha e nos últimos anos temos almoçado comida feita por outros. Este ano, mal percebi que ia pela primeira vez na vida comemorar os meus anos sozinha, os planos foram delineados: iria fazer o bolo mais guloso que sei, cheio de chocolate para as endorfinas, os Bloomin' Brilliant Brownies do Jamie Oliver e, tendo encontrado favas congeladas na minha visita ao Lidl, fazer favinhas guisadas pela primeira vez. Usei o meu vestido de avozinha novo, os meus sapatinhos que o carteiro deixou na tasca da esquina, em vez de me tocar à porta (a propósito, hoje chegou a resposta dos CTT: "o objecto em referência foi depositado no RPD-Receptáculo Postal Domiciliário em (...) na morada que nele constava" - no comments), e vi filmes. Revi o High-Rise, continua um novo favorito, e o Great Gatsby de 1974. O Baz Luhrman nunca devia ter feito a adaptação dele, não vale nada ao pé desta adaptação, muito mais fiel ao livro e magistralmente realizada. Também revi dois Keanus clássicos: Point Break e The Matrix e terminei Star Trek: Picard (ainda não bloguei sobre a série). Agora comecei a fabulosa Years and Years, do meu herói Russel T Davies. Como o WiFi não chega à casa de banho, em geral tenho lá sempre algo leve para ler, banda desenhada, revistas, etc. coisas que possam ser interrompidas após poucas páginas. Agora terminei um livrinho delicioso que comprei em Bristol. Originalmente publicado em 1968, a minha edição é de 2013, o Gear Guide (ISBN 978-1-90840-256-1) é um pequeno guia ilustrado das lojas de roupa da Swinging London dos anos 60. Uma viagem no tempo. O próximo será mais um volume da minha colecçãozinha de Diabolik, BD italiana.

A ronda semanal foi sem nada de notório, há muito mais gente na rua, as pessoas não sabem colocar as máscaras e continuam a não respeitar o distanciamento social. A minha máscara de tubarão fez sucesso entre as meninas do Minipreço, que têm sido as mais humanas e disponíveis de todos os estabelecimentos que tenho visitado. Mais algumas lojas reabriram, como a Varela.
 A minha mãe ofereceu-me um outro bolo de chocolate apudinzado, delicioso!

15 abril 2020

Seccção Alameda/Areeiro - Semana #5


Foi preciso uma quarentena para voltar a ver Sailor Moon Crystal (e anime)

Acabei de ver um "coronaoke", do Robbie Williams, no instagram, que me pôs muito bem disposta! Raisparta que o homem canta que se farta! E tem bom gosto musical. Não tenho visto lives, parecem ser todos ao mesmo tempo e não há grande pachorra. Vi este porque carreguei no link sem querer e foi um belo acaso!

Pois, semana #5... já estamos nisto há mais de um mês? Sinceramente nem parece, mas já dou por mim a pensar que nem tão cedo estamos safos. Mesmo que Portugal, que parece estar a portar-se bem, esteja com isto controlado em, digamos, 2 meses, nada garante que os outros países estejam. Portanto tudo o que dependa de deslocações ao estrangeiro, festivais, espectáculos, deslocações a trabalho em geral, só mesmo para o ano ou quando houver vacina - que também só deve ser para o ano, pelo menos para a população em geral. Por um lado até sinto um certo alívio por, por razões completamente alheias ao bicho, ter decidido que este ano não iria na minha costumeira viagem no início de Outubro ao Reino Unido (desta vez seria Sheffield, com passagem pela minha querida Manchester - I <3 MCR), à BlytheCon UK. Tenho sérias dúvidas que, do modo como as coisas estão a correr no RU, que em Outubro já seja seguro ir lá por lazer. E ao menos não perdi o dinheiro da banca e muito provavelmente nem teria para a viagem, pois o meu trabalho, que em geral me paga o voo, foi adiado. Nada de viagens em 2020 :'(

Esta semana fiz uma máscara de tubarão, porque sim, porque queria ter uma que fosse divertida. Logo vejo se a vou usar. A escolhida paraa ronda foi a vermelha às bolinhas.
Também tive uma pequena epifania de costura. Há 4 anos, com a Miss Mod Vader, dei início a uma série de versões mod anos 60 de personagens de Star Wars, para Blythe. Tudo começou com querer levar sempre um Vader à ComicCon, onde acabei por ir só duas vezes, e, inspirando-me na figurinista Costumer's Closet (pelo menos acho que foi ela), que fez uma versão mod do Vader para o Costumer's College, e fiz a minha versão. No ano seguinte, a tempo do Sci-Fi Lx, tive uma epifania e criei um Mod Imperial Guard, o meu fato preferido de todos os figurinos de Star Wars e cosplay de sonho, que resultou ainda melhor. Tinha aberto as portas... Entretanto fiz o Mod C3-P0, um Rebel Mod Pilot, e tenho em curso os outros droids (Mod R2-D2, Mod BB-8 e Mod D-0), o Chewbacca e chego à epifania número 2, que devia andar a cozinhar na minha cabeça há uma semana: ou seja, Mod Child, ou Baby Yoda, de The Mandalorian. Tinha os materiais todos, já está quase acabado e a ficar giríssimo! Quando as lojas reabrirem, tenho de arranjar umas collants daquele verde, pois só tenho verde alface.
Também estou a tratar de umas encomendas para as Blythes, por isso tive de madrugar para fazer a ronda de supermercado da semana, para ir por uma no correio.

Parece que as pessoas ainda não compreenderam que isto não são umas férias da Páscoa prolongadas! Hoje vi o dobro das pessoas e o dobro dos carros na rua, estavam umas 6 ou 7 pessoas à minha frente nos correios, enquanto têm estado no máximo umas 2 ou 3 das outras vezes, vi imensas ambulâncias na direcção das Olaias, algumas lojas, até agora fechadas, reabriram e ouvi um avião passar esta manhã! Apesar da crise de saúde pública que estamos a viver, tenho ouvido e visto muito poucas ambulâncias, menos que o habitual. Nas minhas rondas de supermercado, tenho atavessado sempre a Almirante Reis, que é uma espécie de corredor de ambulâncias, daí ter estranhado ter visto pelo menos 3 a passar em menos de 10 minutos. As lojas que reabriram eram de comida, a charcutaria Diplomata e a Empadaria Alentejana, ao lado. Sim, marcharam umas empadinhas deliciosas!
Dilema da semana: pessoa A tem um passeio com 4-5 m de largura e cruza-se com pessoa B, parada na fila do supermercado, cumprindo a devida distancia social e ocupando a beira do passeio, deixando 30 a 50 cm da berma livres. Porque é que a pessoa A não passa pelos 4,5 m que tem ao seu dispor e resolve passar pelos 50 cm à beira do asfalto?
E sim, a tasca da esquina deve ter mel, para além da cerveja, cada vez vejo mais gente a tascar à sua porta. Aqui os passeios só têm uns 2,5 m de largura...

Finalmente consegui arranjar o meu adorado sabão azul e branco, se não fosse o risco da embalagem estar viral, até lhe tinha dado beijinhos, mesmo através da máscara! Não procurei álcool, mas também não preciso. A propósito de álcool, o Continente, para além de ter reaberto as escadas rolantes, deixou de ter o gel desinfectante à entrada, porquê? O Minipreço e o Auchan tinham. Finalmente arranjei pão que costumo comprar, de Mafra e também já tenho os ingredientes todos para o bolinho de anos :9~

Já terminei Chernobyl, já só me faltava uma semana e comecei a ver Star Trek: Picard. Estou a gostar, embora ache que o tom é bastante diferente dos Star Treks anteriores, lembra mais Caprica.
Entretanto, adicionar Sailor Moon Crystal às sessões de PC na TV foi boa ideia. Finalmente vi o arco da Black Moon até ao fim e estou a gostar imenso do arco Death Busters/Witches 5! Quando deixo de ver uma série, em geral é porque apareceu trabalho e deixei de ter disponibilidade para continuar a vê-la. Quando volto a ter disponibilidade, acabo muitas vezes por começar outra que me esteja a entusiasmar mais ver no momento e, se por acaso tenho de fazer outra pausa, lá fica mais uma pendurada. É um problema que tenho com o anime, as séries serem muitas vezes compridas, com mais que 12/13 episódios. Uma das razões porque talvez nunca venha a ver One Piece até ao fim, apesar de gostar bastante.

06 abril 2020

Secção Cascais - Semanas 1# e 2#




Fazer anos em pleno período de quarentena é uma daquelas experiências que, não sendo o acontecimento mais doloroso do mundo, não se recomenda a ninguém. Mas, perante as adversidades causadas por um vírus impiedoso, não resta grande hipótese que não seja a de aguçar o engenho para contornar (ou, pelo menos, suavizar) a negritude desta insólita situação. Assim sendo, um pequeno bolo de bolacha caçado durante a primeira incursão a um supermercado desde a oficialização da pandemia passa a ser o bolo de aniversário possível. Sem velas reveladoras da idade nem cânticos de “parabéns a você”, o bolo pode não ter a pompa e circunstância de um brigadeiro gigante mas, ao menos, é saboroso - e, nestes dias cinzentos que correm, a pequena alegria de um bolo saboroso é um bálsamo imprescindível para a nossa sanidade mental.


Desde o arranque desta maldita situação em que todos estamos envolvidos, fui três vezes ao supermercado para fazer as compras ditas essenciais. O primeiro embate com as filas de prateleiras quase completamente esvaziadas é desolador, o açambarcamento deixa-nos com uma selecção limitada e insuficiente e a apreensão é visível nos rostos e expressões corporais de todas as pessoas que caminham pelos corredores. Na segunda semana, porém, as novas visitas correram muito melhor: com as raras excepções de alguns itens, as prateleiras já não se encontravam delapidadas e as pessoas, sem perderem o receio e cautela que são completamente naturais numa altura destas, comportavam-se, geralmente, de forma exemplar, seguindo as recomendações de distanciamento social à risca - e, sobretudo, sem cair em pequenas implicâncias e tricas. Há, apesar de tudo, mais civismo do que os cínicos gostariam de admitir.


Entretanto, eu e o meu irmão fizemos uma espécie de passeio inadvertido à beira-mar quando, ao deslocarmo-nos de carro pela Marginal com o objectivo de ir buscar uma pizza à Pizza Hut da Parede, acabámos presos num longo engarrafamento que nos atrasou a chegada em cerca de meia-hora. Razão para a enorme aglomeração de carros: operação STOP com vista a despistar quem estava a sair de casa pelas razões consideradas aceitáveis pelas autoridades das pessoas que achavam que a maior ameaça à saúde pública desde a gripe espanhola do século passado não passa de uma picuinhice. Apanhámos um pequeno raspanete do agente da polícia que nos mandou parar por sermos duas pessoas num carro a ir buscar uma pizza quando uma é suficiente. Porém, lá nos deixou passar e seguimos com a lição aprendida: evitar a Marginal nestes dias de quarentena, mesmo que a vista seja magnífica. Quanto à pizza, estava morna mas tremendamente comestível.


No Twitter, um amigo escreve que os dias começam e acabam num instante, mas demoram a passar - um paradoxo doloroso que tenho sentido na pele. Uma pessoa parece que passa a viver para preparar as refeições do dia, lavar a loiça, ver os noticiários monotemáticos e adormecer. Fala-se na importância da manutenção de rotinas, mas a verdade é que a pandemia impõe as suas próprias. Felizmente, a arte e o entretenimento existem para nos salvar do tédio e da dor causada pela lenta passagem do tempo. Para não cair num name dropping longo e fastidioso, fica aqui uma única e sentida recomendação: um anime absolutamente brilhante dirigido por Masaaki Yuaasa (realizador do maravilhoso “Devilman Crybaby”) que dá pelo nome de “Keep Your Hands Off Eizouken!” e que está disponível para streaming gratuito no Crunchyroll. Trata-se de uma série sobre três miúdas japonesas muito peculiares que formam um clube de animação na sua escola secundária e descobrem, aos poucos, as dificuldades e alegrias que acompanham a criação de uma curta-metragem animada. Um verdadeiro hino à imaginação e ao processo criativo, sem subplots românticos ou os típicos clichês que pululam em boa parte da produção contemporânea de anime, é daqueles títulos que nos fazem ter vontade de derrotar a inércia e começar a criar. Haverá algo mais apropriado para estes estranhos tempos que vivemos?